Mulheres Q Bebem











{Junho 21, 2008}   Aconchego

Bolinho de chuva, banho de rio, chupar manga no pé, ganhar tamanquinho de madeira comprado na feira, andar a cavalo, moda de viola, cigarro de palha e doses imensas de amor. Tudo isso, e tantas outras coisas, me lembra meus avós – maternos e paternos.

 

Em três anos perdi os quatro, sim, perdas difíceis, uma tristeza e tanto. Ultimamente tenho sentido muita saudade deles.

 

Perder os avós é perder sua referência maior, é sentir que o porto seguro se foi, é como não ter mais pra onde voltar, é nunca mais sentir aquele aconchego que só o colo e a casa deles conseguem proporcionar. É perceber que você nunca mais vai experimentar certos sabores, sentir certos aromas e receber aquele olhar que diz: “Você é a pessoa mais linda, inteligente e especial do mundo”.

 

Ah, sim, porque para os nossos avós nós não temos defeitos. Claro que nossos pais nos amam incondicionalmente, mas eles conhecem nossas falhas, nossos avós, não. Eles simplesmente não tomam conhecimento delas.

 

Sim, muita coisa se foi com a partida dos meus avós, mas a lembrança de uma infância feliz e cheia de amor vai continuar comigo e me ajudando a driblar a saudade deles.  Nunca vou me esquecer do meu vô Arlindo tocando viola, da minha vó Isolina fazendo os pãezinhos mais deliciosos do mundo, do vô tio Zé gargalhando com uma piada e de minha vó Fizoca fazendo biscoito de polvilho e pitando seu cigarrinho de palha…tais lembranças trazem uma saudade  enorme e doída e, ao mesmo, reconfortante ao meu coração.

 

Pensei em várias maneiras de homenageá-los e um dia sozinha em meu quarto decidi que iria fazer uma tatuagem com quatro corações no meu braço, para deixar meus quatro amores para sempre perto de mim. Um jardim de corações que vai me levar de volta ao meu porto seguro.



{Fevereiro 11, 2008}   Lá vem o Oscar

A cerimônia do Oscar está chegando, acontece no dia 24/02. Todo ano eu juro que não vou mais assistir, afinal, quase morro de raiva quando os meus preferidos não são escolhidos, mas reconheço que adoro programas de premiação, em especial o Oscar. Sem falar naquela tradução simultânea, que é uma preciosidade…comédia pura. Prefiro sem tradução nenhuma, assim, se eu não entender alguma piada, a culpa é minha e não por causa daquele ser que fica falando por cima dos apresentadores naquele tom que dá sono em qualquer um.

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Bom, este ano estou torcendo por “Desejo e Reparação”. Filme belíssimo, de uma força e delicadeza impressionantes, mas de uma tristeza sem tamanho. Ao assistir “DR” percebemos como nossa felicidade é frágil, como podemos tomar rumos que não planejamos. Basta um mal-entendido para arruinar uma história de amor, uma vida repleta de sonhos e anseios. Dirigido por Joe Wright, que usa os flashbacks com maestria e de uma forma diferente, “DR” é baseado no livro de Ian McEwan. No papel do filho da criada que é acusado de um crime que não cometeu, James McAvoy – de “O Último Rei da Escócia” e “Wimbledon” – dá um show de interpretação. Ainda não sei por que ele não foi indicado ao Oscar de Melhor Ator?!?!?!?! Ele e Keira Knightley, também com excelente atuação, formam um casal lindo, atormentado e separado pela mentira criada pela irmã dela. A gente torce feito louco para que os dois sejam felizes juntos e, de certa forma, isso acaba acontecendo. 

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Quem ainda não assistiu, vale uma corrida até o cinema.
(Gi)



{Fevereiro 11, 2008}   Eu e os motoboys

Sempre procurei entender a loucura que é a rotina de um motoboy numa cidade como São Paulo. A doidera do trânsito tira qualquer um do sério. No entanto, a compreensão vai pro buraco quando a violência impera e você se torna uma de suas vítimas. 

Há poucos dias estava indo para o trabalho na pista da esquerda da Radial Leste, quando, de repente, aparece um senhor numa bicicleta velha circulando, jus-ta-men-te, no cantinho da pista da esquerda. Para não atropelar o senhor, tirei o carro um pouco para a direita, sim, cometi o grande erro de me preocupar em não atropelar aquela pessoa, e acabei dando um chega-pra-lá num motoboy, que vinha com sua namorada na garupa. Claro que ele me xingou, com razão, mas não tive intenção alguma em atingi-lo, apenas quis me desviar do “bicicleteiro”. Em meio à discussão – com carro e moto em movimento, um perigo –, tentei explicar para aquela criatura por que eu havia “jogado” o carro em cima dele. Claro, nenhum tipo de argumentação funciona nessa hora. Seguindo a boa tradição desses profissionais, o rapaz tentou acertar o retrovisor direito do meu carro com o pé. Não conseguiu e gritou um pouco mais. 

Dissimuladamente, ele e sua namorada me deixaram passar e, ingenuamente, eu os ultrapassei. Vi pelo retrovisor o rapaz sem capacete, mas em nenhum momento consegui imaginar que em poucos minutos eu entraria para a estatística dos retrovisores destroçados por motoboys. Não satisfeito, o rapaz pegou seu capacete, como se fosse uma bola de boliche, e abalroou meu retrovisor. Levei um susto, mas consegui manter a calma e evitar o pior. O coitado do meu retrovisor ficou irreconhecível, balançando na lateral do carro até eu chegar ao trabalho, percurso que fiz xingando o motoboy, sua namorada de capacete rosa – ai que raiva! – e todas as suas próximas gerações. 

Para encurtar a história, mais do que sentir raiva, fiquei chocada e chateada, nunca havia sido vítima direta de uma violência assim. Violência gratuita, por um motivo tolo. Fiquei imaginando, se ele tivesse uma arma, teria atirado em mim?!?!?!?! Durante uma semana fiquei arrasada, ainda mais porque acontecimentos assim acabam despertando o pior da gente. Adeus compreensão, você quer mesmo é que todos eles se danem.  No final das contas, nós, motoristas, nos tornamos reféns dos motoboys. Mudar de faixa??? Nem pensar, se você der seta, a criatura vem lá de longe buzinando; você tem que jogar seu carro no buraco para abrir passagem para eles. Mas seja motoboy ou motorista, o trânsito é um reflexo da nossa realidade, pessoas embrutecidas pela rotina, sem educação, que jogam latas dos carros e ônibus, que usam faróis de luz azul, que não dão passagem e que querem levar vantagem sempre, sem pensar no outro ser humano que divide com ele o mesmo espaço público, público, eu disse. 

A única coisa que sei é que estou menos tolerante com motoboys, e sempre achei a intolerância o grande mal da humanidade. Ou seja, saí perdendo nessa história, morri com o “preju” do retrovisor novo e desenvolvi uma característica que detesto. É o preço que pagamos…
(Gi)



etc.