Sempre procurei entender a loucura que é a rotina de um motoboy numa cidade como São Paulo. A doidera do trânsito tira qualquer um do sério. No entanto, a compreensão vai pro buraco quando a violência impera e você se torna uma de suas vítimas.
Há poucos dias estava indo para o trabalho na pista da esquerda da Radial Leste, quando, de repente, aparece um senhor numa bicicleta velha circulando, jus-ta-men-te, no cantinho da pista da esquerda. Para não atropelar o senhor, tirei o carro um pouco para a direita, sim, cometi o grande erro de me preocupar em não atropelar aquela pessoa, e acabei dando um chega-pra-lá num motoboy, que vinha com sua namorada na garupa. Claro que ele me xingou, com razão, mas não tive intenção alguma em atingi-lo, apenas quis me desviar do “bicicleteiro”. Em meio à discussão – com carro e moto em movimento, um perigo –, tentei explicar para aquela criatura por que eu havia “jogado” o carro em cima dele. Claro, nenhum tipo de argumentação funciona nessa hora. Seguindo a boa tradição desses profissionais, o rapaz tentou acertar o retrovisor direito do meu carro com o pé. Não conseguiu e gritou um pouco mais.
Dissimuladamente, ele e sua namorada me deixaram passar e, ingenuamente, eu os ultrapassei. Vi pelo retrovisor o rapaz sem capacete, mas em nenhum momento consegui imaginar que em poucos minutos eu entraria para a estatística dos retrovisores destroçados por motoboys. Não satisfeito, o rapaz pegou seu capacete, como se fosse uma bola de boliche, e abalroou meu retrovisor. Levei um susto, mas consegui manter a calma e evitar o pior. O coitado do meu retrovisor ficou irreconhecível, balançando na lateral do carro até eu chegar ao trabalho, percurso que fiz xingando o motoboy, sua namorada de capacete rosa – ai que raiva! – e todas as suas próximas gerações.
Para encurtar a história, mais do que sentir raiva, fiquei chocada e chateada, nunca havia sido vítima direta de uma violência assim. Violência gratuita, por um motivo tolo. Fiquei imaginando, se ele tivesse uma arma, teria atirado em mim?!?!?!?! Durante uma semana fiquei arrasada, ainda mais porque acontecimentos assim acabam despertando o pior da gente. Adeus compreensão, você quer mesmo é que todos eles se danem. No final das contas, nós, motoristas, nos tornamos reféns dos motoboys. Mudar de faixa??? Nem pensar, se você der seta, a criatura vem lá de longe buzinando; você tem que jogar seu carro no buraco para abrir passagem para eles. Mas seja motoboy ou motorista, o trânsito é um reflexo da nossa realidade, pessoas embrutecidas pela rotina, sem educação, que jogam latas dos carros e ônibus, que usam faróis de luz azul, que não dão passagem e que querem levar vantagem sempre, sem pensar no outro ser humano que divide com ele o mesmo espaço público, público, eu disse.
A única coisa que sei é que estou menos tolerante com motoboys, e sempre achei a intolerância o grande mal da humanidade. Ou seja, saí perdendo nessa história, morri com o “preju” do retrovisor novo e desenvolvi uma característica que detesto. É o preço que pagamos…
(Gi)